É possível haver um relacionamento especial entre uma planta e a humanidade? Como se explica que entre os bilhões de formas de vida existentes na terra só um número infinitamente pequeno tenha um relacionamento com a humanidade? No reino animal temos uma relação especial com bois, cachorros, gatos, cavalos e mais um pequeno número de outros animais que vivem perto de nós, com quem partilhamos nossas vidas e que por sua vez nos prestam benefícios. Seria difícil imaginar a vida sem esses relacionamentos especiais e íntimos que nos acompanham desde nossas mais remotas lembranças históricas.

Mas e quanto ao reino vegetal? Haverá relacionamento tão estreita e intimamente ligados ao nosso próprio reino que o desenvolvimento humano tal como o conhecemos não poderia ter acontecido sem a sua ajuda? As árvores nos fornecem madeira para construir, o algodão nos veste. O trigo, o milho e outros grãos nos alimentam. As plantas medicinais aí estão para nos dar alívio quando estamos doentes, e muitas outras plantas estão disponíveis para nos sustentar e auxiliar em nosso empreendimento humano. Contudo, existe apenas um auxiliar vegetal usado no mundo inteiro, desde a pré-história, que nos fornece alimento, roupas, material de construção, combustível, medicamentos e tem o poder de afetar nossa consciência, nossa imaginação e o modo como vemos o mundo. Essa planta é o cânhamo, Cannabis sativa.

O cânhamo aparece na cena mundial na aurora da experiência humana. Encontramos suas sementes, além de cordas e roupas feitas de cânhamo nos túmulos mais antigos. O seu uso medicinal é encontrado em nossos primeiros textos médicos. Vemos o cânhamo desempenhando uma função-chave em muitos dos grandes momentos da história. Quando as prensas de Gutenberg começaram a funcionar, foi papel de cânhamo que recebeu a tinta e disseminou a palavra da Bíblia para uma Europa que despertava. Quando a ânsia de descobrir um novo mundo, uma nova maneira de viver, deu origem à idade das descobertas cerca de 500 anos atrás, foi o cânhamo que a viabilizou, dando aos exploradores as velas e o cordame necessários para cruzar os oceanos. Quando chegou a hora de definir esse novo mundo, suas metas e aspirações, foi em papel de cânhamo que os rascunhos da Constituição e da Declaração de Independência dos Estados Unidos foram escritos. À medida que a jovem nação avançava para o oeste, era cânhamo que cobria os carroções dos colonos.

Mesmo depois de declarada ilegal, essa planta proscrita retornou em momentos de especial necessidade. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando os fornecimentos de fibra crua foram interrompidos pelos japoneses, o cânhamo foi reapresentado ao agricultor americano para incrementar os esforços de guerra, enquanto o Departamento de Agricultura dos EUA proclamava o “cânhamo para a vitória” [Hemp for Victory]. Na década de 1960, um movimento de jovens inspirado por ideais de paz e amor eclodiu na cena mundial, contestando a ordem social, econômica e religiosa da época. Esse movimento de milhões e milhões não teve líderes, nem ideologia, nem estratégia para a mudança, apenas uma percepção profundamente enraizada da hipocrisia da “visão de mundo materialista do Sistema” e uma relação especial com uma planta – uma planta que tem no cérebro humano receptores à espera para receber suas mensagens bioquímicas. Fez-se ouvir uma mensagem de respeito pela terra, suas plantas e animais, por nossos corpos e pelos alimentos que comemos, pelas culturas e povos diferentes dos nossos, e a onda de mudança que ela provocou ainda persiste na atualidade.

É extraordinário que o cânhamo ressurja novamente, e desta vez como protetor do meio ambiente e matéria-prima de medicamentos. Hoje, o cânhamo nos oferece uma solução bastante real e imediata para o desmatamento, os desmandos da indústria petroquímica e a destruição de nossos solos, bem como para o tratamento de problemas de saúde tão diversos quanto o glaucoma e a AIDS.

Só a arrogância da mentalidade atual, que rende culto perante o altar da igreja do progresso, poderia rejeitar e negar a história e as virtudes do cânhamo. É necessário temer e proscrever essa planta? Ou estamos na verdade tentando proscrever uma mudança na consciência? Por mais que tentemos, uma mudança na cultura e na consciência já está em curso – uma mudança que dignifica a Terra e abarca as qualidades curativas, ambientais e espirituais desse relacionamento especial entre cânhamo e a humanidade.

Ehud C. Sperling
Prefácio – O Grande Livro da Cannabis, de Rowan Robinson – Jorge Zahar Editor.

 


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